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Roger Waters em Curitiba 2018: música e política

Neste dia em que Mr. Roger Waters completa seus 77 anos vou falar de sua última visita ao Brasil, em 2018. Quando soube desta tour, ainda no final de 2017, eu morava em Florianópolis, mas já estava com a mudança para Curitiba marcada e a ansiedade para outubro começou já no reveillon. Eu já tinha visto Waters na Apoteose em 2002, mas não poderia deixar passar mais esta oportunidade de ver o astro, ainda mais tendo visto tantos vídeos da tour US + THEM, que estava espetacular.

Aquele foi um ano bastante tumultuado pra mim e foram longos dez meses na incerteza se conseguiria ou não ir ao show no Couto Pereira, até que consegui, aos 45 do segundo tempo, comprar meu ingresso e garantir aquela experiência

Era um sábado de tempo agradável em Curitiba, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, e Roger Waters, como sempre muito politizado, recheou o show com críticas e comentários sobre aquele momento incerto pelo qual nosso país passava. Além da grande tensão para entrar no estádio já lotado com cerca de 40 mil pessoas, eu estava bem tensa também com a polarização do público, alguns enfurecidos gritando fora PT e outros - nos quais eu me incluía - gritando Ele Não

Tentei deixar essa tensão de lado e me ajeitei num cantinho da arquibancada por trás de uma grande tela - cheguei tarde e não tinha mais qualquer outro espaço livre, o estádio Couto Pereira estava completamente tomado, então fiquei feliz por ter encontrado um lugarzinho de onde eu podia avistar o palco por inteiro, ainda que bem distante.

Em poucos minutos, às 21h30 pontualmente, com a clássica mega estrutura de projeções, Mr. Waters inicia o espetáculo audiovisual com Speak to me/Breath, seguida de One of These Days e Time. O clima continuava tenso, Waters vinha causando muita polêmica desde o primeiro show em São Paulo e  cada fala dele dividia a plateia em xingamentos e elogios. Realmente difícil de entender como alguém que se preza a ir em um show tão grandioso, alguém que possa se dizer fã de Roger Waters (ou do Pink Floyd) seja tão contrário à sua visão política, o que só demonstra que não prestaram atenção ou não entenderam nada de sua obra, praticamente toda pautada em um viés anti fascismo, contra a subserviência e a favor dos mais vulneráveis. 

Incoerências à parte, o show seguiu musicalmente e visualmente fantástico, incluindo a belíssima performance de The Great Gig in the Sky com as americanas Jess Wolfe e Holly Laessig em um figurino e cenário futurísticos a la David Bowie

Depois de Welcome to the Machine, faltando alguns segundos para as dez da noite, as luzes se apagam e o telão exibe os dizeres: "São 9:58, nos disseram que não podemos falar da eleição depois das 10 da noite. É lei. Temos 30 segundos. Essa é a nossa última chance de resistir ao fascismo antes de Domingo. Ele não! São 10 horas. Obedeçam a lei.", arrancando muitas vaias e aplausos da plateia, completamente dividida. Foram vários instantes até que a multidão se acalmasse, mas a tensão continuou no ar e ouvia-se todo o tempo alguns xingando Waters e outros elogiando e gritando Ele Não! A música parecia coadjuvante naquela noite. Uma verdadeira rixa de "torcidas" se instaurou, com pessoas se agredindo verbalmente o tempo todo, como se a grande maioria ali presente nunca tivesse escutado Pink Floyd verdadeiramente.

Waters jamais se deixaria intimidar, ele solta um "Muito obrigado, também amo vocês" e depois do tumulto, emenda três de suas composições em carreira solo, as belas Deja Vu e The Last Refugee e a agitada e crítica Picture That.

Um momento mais calmo com Wish You Were Here, em que quase chorei, para voltar às críticas e mega projeções com a tríade The Happiest Days of Our LivesAnother Brick in the Wall Part 2Another Brick in the Wall Part 3.

Durante o breve intervalo o público continuava dividido, se acusando, xingando, aplaudindo, vaiando, via-se tudo ao mesmo tempo, uma verdadeira arena com as pessoas se digladiando, um ambiente pouco propício para uma viagem musical tão sensacional quanto Roger Waters poderia nos proporcionar.  

A segunda parte do show veio com uma bateria de clássicos: Dogs, Pigs (Three Different Ones), onde surge o grande porco rosa flutuante com a frase "Seja Humano", Money e Us and Them. Mais uma da carreira solo Smell the Roses, antes da dobradinha Brain Damge/Eclipse, a minha preferida. 

Um bis com mais algumas da carreira solo e o encerramento apoteótico com Comfortably Numb, e já era o dia de decidir o futuro do país nas urnas. Pra mim só faltou Mother, que cairia também como uma luva para o momento. 

Um show histórico, muito mais pelo momento político do país do que pela música em si, mas que não deixou de proporcionar uma grande noite para os verdadeiros fãs de Roger Waters e Pink Floyd



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