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Cake no Hotel Unique em São Paulo

Há exatamente 14 anos, naquele 5 de agosto de 2005, eu assisti ao vivo uma das bandas mais originais e criativas dos últimos anos, o Cake. Os californianos de Sacramento estiveram no Brasil para uma tour nacional, passando por Porto Alegre (no Bar Opinião), São Paulo (no Hotel Unique), Goiânia (no Go Music Festival) e por Curitiba (no Master Hall). 

Rio de Janeiro, onde eu vivia na época, não entrou no mapa da banda, mas eu não pensei duas vezes em viajar pra terra da garoa, já que Mr. John McCrea e companhia eram a banda que eu mais ouvia naquele tempo. Não era a primeira vez que eu ia a Sampa (eu tinha um irmão que morava na cidade), mas foi a primeira vez que saí do Rio para ver um show, o que virou uma experiência e tanto, pois juntou minhas duas maiores paixões: música e viagem.

Cake em São Paulo | Foto de Eduardo Viveiros

O Hotel Unique, no Jardim Paulistano, vinha se tornando um lugar clássico para shows na cidade, apesar de eu particularmente não ter achado um espaço tão apropriado para receber a banda, com seu público de quase três mil pessoas. O palco me parecia estreito, era extremamente baixo, e a pista em formato retangular ao comprido do palco, dava a impressão de estarmos todos em um curral. Foi mesmo uma sensação estranha, mas a atração no palco faria essa má impressão se dissipar durante a noite. 

Sob alguma euforia, a banda entrou no palco meia-noite e meia, e o carisma de McCrea rapidamente conquistou a plateia. Eles começaram com Sheep go to heaven, de Prolonging the Magic (1998), e o som estava péssimo, mal se conseguia ouvir a voz de McCrea. Foi em Frank Sinatra, do Fashion Nugget (1996), uma das minhas composições favoritas da banda, que o som melhorou um pouco e eu realmente saí de mim, me entregando completamente. Me lembro até hoje da emoção de vê-la tocada ao vivo. Porém, a casa veio abaixo mesmo com o mega hit Never There, a música mais conhecida de Cake por aqui, e a responsável pela popularização da banda em terra brazilis. Assim como todos, eu dancei muito nessa hora.

O repertório inteiro foi perfeito, pois pra mim não existe música ruim do Cake, e como McCrea gostava de deixar claro em suas entrevistas - "Nos sentimos muito como máquinas quando fazemos uma lista do que vamos tocar. Preferimos decidir na hora" - as músicas iam sendo escolhidas na hora, entre uma fala e outra do frontman, que conversava bastante com o público. Algumas faixas se destacaram e tiveram uma excelente resposta do público, como a regravação de The Guitar Man, do Bread, um momento bem viajante, assim como as participações de Tom Zé, amigo e ídolo de McCrea e do trompetista Vince DiFiore, único membro remanescente da primeira formação da banda. Tom Zé já tinha participado da apresentação dos californianos quando eles estiveram no Brasil em 1999, para o Free Jazz Festival. No Unique, ele subiu ao palco no final de Wheels, assumindo o teclado e o microfone em uma jam instrumental com a banda. No final ele voltou em Italian leather sofá com instrumentos tipicamente brasileiros, encaixando perfeitamente suas experimentações com a mistureba de jazz, folk, hip-hop e rock do CakeOutro ponto alto da noite foi a execução de The Distance, mais um hit de Fashion Nugget que ficou famoso no Brasil, além da queridinha do álbum Pressure Chief (2004), estrela daquela tour, a envolvente No Phone; Enquanto a turminha da área vip não largava os aparelhos, McCrea provocava pedindo que os desligassem ao menos por uns momentos.

Eu estava tão empolgada com a performance dos californianos que cheguei a tentar ir pra fila do gargarejo, pra poder vê-los mais de perto. Consegui, depois de muita relutância, chegar às grades, mas a sensação da multidão me esmagando foi horrível, fazendo minha pressão cair. Tive que ser retirada pelos seguranças por cima das grades, enquanto eles cantavam Rock 'n' Roll Lifestyle no palco. Recomposta, continuei curtindo o espetáculo lá de trás, mais afastada da multidão, com o som ainda sofrendo falhas técnicas, tendo esse episódio me marcado de tal forma que nunca mais quis ir pra frente em nenhum show.

No bis eu curtiria ainda mais, a excelente Confort Eagle e a maravilhosa versão de I Will Survive, o primeiro grande sucesso do Cake no Brasil, fechando aquela noite histórica (pelo menos pra mim, que voltaria a São Paulo para muitos outros shows depois daquele). Aliás, eles são ótimos em fazer versões de outros artistas, além dessa pérola de Gloria Gaynor, eles têm Perhaps, Perhaps, Perhaps e uma inusitada versão de War Pigs, do Black Sabbath. E McCrea nunca se importou de ficar tão famoso por uma música que não era sua. Na ocasião do show, em entrevista para o Omelete, ele diz: "Eu não acredito em ter um universo próprio para o repertório. Quando estamos gravando um disco, procuramos músicas que se encaixem no clima que queremos. Não importa se é composta por mim ou não. Preferimos focar na música".  Sorte a nossa! O simpático McCrea se despediu deixando a certeza de que a experimentalidade pode sim ser muito agradável aos ouvidos de muitos.

Confira um trecho do show, que encontrei na internet, algo raro, já que na época ainda não era tão comum tudo cair no Youtube :)

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