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A primeira vez do Pearl Jam na Apoteose

Hoje, 21 de março de 2018, o Pearl Jam se apresenta no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, sendo a quinta vez que os ícones de toda uma geração pisam em terras tupiniquins. A cada ingresso vendido, nove reais são revertidos para a Fundação Vitalogy, uma instituição de caridade pública dos Estados Unidos, que tem seu trabalho voltado para os campos da saúde comunitária, do meio ambiente, das artes, da educação e da mudança social. Mas não é sobre esse show que eu vou escrever...

Inspirada pela vontade alucinante de estar no Maracanã esta noite, vou recordar um momento histórico, a primeira vez que Eddie Vedder e cia pisaram na cidade maravilhosa, no dia 4 de dezembro de 2005, na Praça da Apoteose, e euzinha estava lá, entre as dezenas de milhares de vozes, naquela catarse coletiva que foi o encerramento da estreia dos americanos no Brasil.

Já se vão mais de doze anos daquele momento, mas a emoção, os gritos, os pulos e as cenas estão bem gravados na minha memória. Recordo-me de entrar durante o show de abertura do Mudhoney e me deparar com uma Apoteose tão abarrotada quanto na minha primeira visita ali, no show do Roger Waters, em 2002 (assunto para um post muito em breve, já que esse ano ele também retorna ao Brasil). Corri para a arquibancada, para poder ter visão do palco - eu não podia me contentar apenas com as imagens do telão - e encontrei uma amiga querida da faculdade que também era fã da banda. Posicionada bem lá no alto, do lado direito da arquibancada, eu tinha um panorama fantástico da multidão e do palco. E nos minutos que antecediam a entrada triunfal, eu quase podia ouvir meu coração pulando dentro do peito. 

Até que, pouco depois das oito da noite, com o dia ainda claro pelo horário de verão, a longa espera por aquele momento finalmente chegou ao fim - o Pearl Jam levou 14 anos para vir ao Brasil, desde o lançamento de Ten (1991), e sua aparição por aqui era algo considerado improvável, quase que uma lenda urbana. Sob gritos histéricos e muitos "Pearl Jam, Pearl Jam, Pearl Jam" entoados pela multidão, os americanos sobem ao palco com os acordes de Last Exit, faixa de abertura do excelente Vitalogy (1994). Não, ainda não caiu a ficha, mas aí eles sacodem todo mundo emendando Do The Evolution, levando o público literalmente ao delírio. Pra continuar com a pancada na orelha, eles mandam ainda Save You e Animal, sem deixar a peteca cair. Parecendo entender que precisávamos de um momento pra respirar, Vedder desacelera um pouquinho, cantando Insignificance, do Binaural (2000). Só um pouquinho mesmo, porque logo em seguida a banda faz a dobradinha intro de Interstellar Overdrive (Pink Floyd) e Corduroy, para então tocarem a linda Dissident, outra do Vs (1993), que deu mais uma trégua pra galera.

Certo, tudo muito lindo, e aí vem o primeiro classicão, Even Flow, do álbum responsável pela popularização não somente da banda, mas de todo um estilo, no início da década de 90, o premiadíssimo Ten, fazendo todo mundo voltar no tempo, pulando e gritando o mais alto que era possível em meio à multidão, com a incrível performance de Mike McReady na guitarra. Num sobe e desce de energia incrível, vem Leatherman, seguida do que, pelo menos pra mim, foi o auge da noite: Given to Fly, um tantinho acelerada e fazendo eu quase literalmente voar daquelas arquibancadas. Que momento inesquecível! Arrepio só de lembrar, mesmo mais de uma década tendo se passado...

Voltando pra Terra, ou melhor, pra Apoteose, os primeiros acordes de Daughter cantada em alto e bom som pela massa jamsiana e um coro de "Oh oh, oh oh, oh oh oh oh", com Vedder visivelmente embasbacado e a banda viajando em uma versão estendida, com trechos de It's Okay (Dead Moon) e Suck You Dry (Mudhoney). "Bravo Rio!", agradece Vedder enquanto a galera puxa novamente o coro de "Oh oh", e a banda ameaça retomar a música, e aí ele puxa "Hey, ho, Rio!" Pronto, muda o coro e Vedder tem, como vinha sendo desde o início do show, o público nas mãos... Ele aproveita o entrosamento todo para ceder o microfone ao guitarrista Stone Gossard, que canta Don't Gimme No Lip, música de autoria dele, gravada para o No Code, mas lançada somente na compilação de gravações não lançadas, Lost Dogs, de 2003. Vedder retorna para um momento mais calmo da apresentação com Not for you, e a bela Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town. Hora de subir a energia de novo começando com Down, seguida de Once e Go, com mais um solo fenomenal de McCready.

Um ensaio de saída da banda, para um retorno em menos de um minuto, porque claramente a noite ainda estava longe de terminar. Vedder toca sozinho Soon Forget, já visivelmente embriagado do vinho e, muito provavelmente, da energia daquele momento, para ficar, no instante seguinte, ainda mais embriagado com a multidão alucinante cantando a introdução de Better Man. Pular eu? Só alto o suficiente para quase rolar arquibancada abaixo... E aí vem a tradicional homenagem a Johnny Ramone com a versão já clássica da banda para I Believe In Miracles.

O que vem a seguir é a pesada Blood, seguida de Kick Out the Jams, logo depois que Vedder convida o Mudhoney a retornar ao palco, fazendo juntos uma versão arrasadora do ícone punk MC5. Pra fechar aquela sequência, a mega clássica Alive, cantada tão alto que a voz de Vedder ficou ofuscada em meio ao povaréu. Eles saem do palco, mas o público não se dá por vencido e grita incessantemente pelo retorno dos músicos, que atendem prontamente, brindando os fãs com uma jornada esmagadora: Last Kiss, seguida de uma estonteante execução de Black - para o público,  para Vedder, que parecia no auge da embriaguez, e para os outros membros da banda, que improvisavam e estendiam a música até quase onze minutos de duração, acompanhados do coro apoteótico de "uh uh uh uh" e Vedder se enrolando em uma bandeira do Brasil, jogada da plateia. "I will keep this in my home!" Vedder esforça-se então no português: "Tocamos para 120 mil brasileiros e vocês foram tremendos! A próxima vez que tocarmos aqui, o mundo será melhor porque George Bush não será mais presidente!", sendo ovacionado pela galera.

Para fechar aquela noite mágica, ainda viria Jeremy com a apresentação de toda a banda por parte do carismático Vedder, que brincava com os nomes: "Eh oh, Rio, Mike "McReRIO". Alguns acharam que o show terminava ali, as luzes se acenderam e a plateia já começava a dispersar, enquanto outros não arredavam o pé, ainda atônitos (incluindo-me nessa) com aquelas duas horas de show. Surpresa! Eles puxam Baba O'Riley, clássica do The Who, pra fechar a conta e passar a régua. "Love you. Good Night. Goodbye!" Goodbye, Eddie carismático Vedder, we love you too!

E naquela noite, o ícone master do samba carioca entrou para a história de uma geração embalada pelo ícone do rock dos anos 90. Uma das bandas mais consagradas dos últimos tempos, tatuada na memória para sempre...

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