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Rush no Maracanã em 2002: sintonia perfeita entre banda e público

Aquele sábado de primavera com o habitual clima de verão carioca, aquele 23 de Novembro de 2002, marcaria o encerramento da tour mundial de uma das bandas mais virtuosas do universo: a canadense Rush. Era a primeira vez que os caras tocavam no Brasil, e o maior estádio do mundo, o Maracanã, foi o palco para aquele momento histórico, e também o local escolhido para a gravação do DVD da tour de Vapor Trails, o mais recente álbum da banda na época. Era um momento muito esperado por milhares de fãs (40 mil para ser mais exata), que acompanhavam a banda desde a década de 80, e era a primeira vez que eu pisava em um estádio de futebol. Recordo-me até hoje, quase 14 anos depois, da emoção que tomou conta de mim já na fila do lado de fora do Maraca, com aquela multidão ávida para ver Mr. Geddy Lee e cia. Ao entrar no gigante, a euforia era geral e eu observava a variedade de público: jovens, velhos, famílias com crianças. Lembro de uma família bem perto de mim, um casal com uma menina que devia ter uns 10 anos e me imaginei com uma filha em shows como aquele. Eu ainda nem sonhava que ia ter dois filhos tão ou mais rockeiros do que eu...

A espera pelo início foi curta e o power trio, talvez o mais power da história, subiu ao palco do Maracanã às dez da noite iniciando com nada menos do que Tom Sawyer, um dos maiores clássicos da banda. Não deu tempo nem de parar para pensar, foi um furacão imediato, levantando a multidão logo de cara... Pausa pra respirar? Nada disso, eles tocam em seguida a viajante Distant Early Warning, do álbum Grace Under Pressure, de 1984 e emendam em New World Man, do Signals, de 1982. A interação do público era tão calorosa que surpreendeu a banda, acho que se eles tivessem ideia da receptividade dos fãs brasileiros, não teriam esperado trinta anos para pisar em terras tupiniquins. Naquela semana eles já tinham tocado para 25 mil fãs gaúchos em Porto Alegre e para 60 mil paulistas no Morumbi. Aliás, acho que eles nem tinham ideia que bateriam dois recordes de público em seus concertos, justo em São Paulo e no Rio.

Músicas novas? Ainda não, eles continuaram passeando pela sua trajetória de brilhantismo musical e criatividade e tocaram Roll the Bones, do álbum homônimo de 1991, para só depois apresentar a primeira canção do novíssimo Vapor Trails, Earthshine. Daí vem o primeiro dos muitos momentos altos da noite, talvez o que mais tenha impressionado o trio: é possível cantar uma música instrumental? Sim, YYZ no Maracanã é prova disso, onde 40 mil vozes cantarolam toda a melodia da música, pulando e vibrando em cada virada de Neil Peart, uma exaltação que nem mesmo um Fla x Flu poderia presenciar. 

A sintonia público x banda continua com The PassBravado, The Big Money e mais um simpático "Obrigado" de Geddy Lee, seguido do violão dedilhado por Alex Lifeson iniciando a belíssima The Trees, cantada em uníssono e tendo novamente cada movimento de Peart aclamado euforicamente. A sequência seria ainda matadora com Freewill, Closer to the Heart - que momento!!! - e encerrando a primeira parte do show com Natural Science. O próprio Neil Peart, viria depois a escrever no encarte do CD Rush in Rio, a emoção que sentiu naquele palco, com o entrosamento do público.

O segundo set do show começa com belas imagens no telão e um dragão a soltar fogo, como que incendiando o palco para a entrada das baquetas arrasadoras de Peart - não há dúvidas que este seja um dos maiores, senão o maior baterista de todos os tempos - iniciando a nova e empolgante One Little Victory. Aquela aparição inédita dos canadenses no Brasil parecia ocorrer no momento perfeito. Claro, muitos ali os aguardavam há pelo menos uns 20 anos, e eles chegaram a ser a banda mais votada para participarem das três edições do Rock in Rio, mas quem esteve naquele sábado no Maracanã, com certeza não se decepcionou com a espera. Um show apenas da banda, que passou a fazer set lists históricos somente na década anterior, brindou os cariocas com uma noite memorável. Set list este que passeou por 15 dos 17 álbuns de estúdio lançados até então. Presente melhor que esse? Só mesmo poder presenciar o solo de bateria mais aguardado da história: 8 minutos de Neil Peart em sua "nave espacial" girando pelo palco, praticamente abduzindo aquelas 40 mil almas ali presentes. 

Depois da viagem ao universo de Peart, somente uma versão acústica de Resist, para nos trazer de volta à Terra. Mas logo depois a viagem continuaria com 2112 Part I: Overture2112 Part II: The Temples of Syrinx, e como um átomo gigante em movimento, o Maracanã pulava e aplaudia cada movimento virtuoso da banda. Um virtuosismo que emociona, que mistura técnica e sentimento e que envolve em cada acorde. em cada melodia. Aí viria então uma sequência para provar tudo isso de uma só vez: LimelightLa Villa StrangiatoThe Spirit of Radio - nestas duas últimas eu quase chorei, uma verdadeira transitação entre algumas dimensões. Acabou? Alguém anotou a placa do caminhão? Não, ainda não. Eles voltariam para um bis com By-Tor & The Snow DogCygnus X-1 e, para fechar aquela noite histórica e aquela tour recordista, Working Man

Foram precisos vários instantes para "cair a ficha" e eu me aperceber que a minha primeira - e única - vez no Maracanã tinha sido algo que ficaria gravado eternamente na minha memória. Com apenas 22 anos, eu testemunhava um dos maiores espetáculos da terra. Oito anos depois, em 2010, eles retornariam ao Rio para se apresentarem na Apoteose, e eu, apesar de ter comprado o ingresso, não pude comparecer por problemas pessoais. É uma desilusão que me acompanha até hoje, mas que é compensada ao assistir o Rush in Rio e poder dizer: "Eu estava lá!"...




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