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Quando os gigantes estiveram entre nós

Em primeiro lugar, queria avisar ao caro leitor que este talvez seja o texto mais difícil de escrever, pois se trata possivelmente do show mais incrível e significativo que assisti até hoje, aquele show que fica marcado no coração e na memória, aqueles momentos inacreditáveis que jamais pensamos que vão acontecer e que de repente estamos ali, vivenciando-os plenamente. Ou será que por causa disso tudo fica fácil escrever sobre o que aconteceu na Praça da Apoteose no dia 27 de janeiro de 1996, quando Jimmy Page e Robert Plant subiram juntos ao palco, quando metade do Led Zeppelin esteve diante de nós, brasileiros. Bom, tire suas próprias conclusões e embarque comigo nesta estonteante jornada, quando os gigantes resolveram caminhar entre nós mais uma vez.

Eu já tinha visto Mr. Plant no Hollywood Rock de 1994, na mesma Apoteose, o que já tinha sido maravilhoso e tinha entrado para a minha história pessoal e de tantos outros que tiveram a felicidade de ver pela primeira vez ao vivo a voz da melhor banda de rock de todos os tempos. Mas eis que no final daquele mesmo ano, eles lançam No QuarterJimmy Page & Robert Plant Unledded, um disco na onda dos acústicos da MTV, que estavam tanto em moda na época. O disco era algo impensado, totalmente inesperado e continha ótimas versões das músicas do Led Zeppelin com instrumentos na linha da música árabe, sendo que a maioria do disco é ao vivo. Porém, mais impensado, mais alucinante ainda foi o anúncio da participação deles naquela que seria a última edição do saudoso Hollywood Rock.
Era o segundo dia do festival, já tinha rolado RaimundosBushUrge Overkill e uma ótima apresentação do Black Crowes, que sem dúvida era a banda perfeita para abrir para Page e Plant. Luzes apagadas, o momento era de roer todas as unhas possíveis e impossíveis, quando de repente começa uma introdução que me fez lembrar o filme Drácula de Bram Stoker, o que pra mim já era um excelente presságio. Mais um pouco e surgem os deuses do rock juntos, acompanhados do magnífico Micheal Lee na bateria (e de um baixista que sinceramente não lembro o nome), e a banda toca os primeiros acordes de Immigrant Song, já levando o público ao delírio. Mas foram apenas alguns segundos, pois eles emendam com Wanton Song, do disco Physical Graffiti, que eu confesso que não conhecia na época, mas imediatamente fiquei fissurado no riff da música. Na sequência, vem um pedaço de Bring It On Home, que tem um dos riffs mais Led Zeppelin da história do rock (if you know what I mean), uma canção incrível. Eis que eles param e Mr. Page brinca um pouco com a guitarra, começando em seguida Heartbraker. Nem preciso dizer que esta incendiou completamente o público, naquele momento éramos todos um mar de som, uma só onda, uma só vibe, todos pulando em uníssono, todos um só planeta de rock. Em seguida, emendam comRamble On, outro clássico maravilhoso do Led Zeppelin.
Mas espera aí, o que é isso, o que está acontecendo? Era o que todo mundo se perguntava quando acabou de passar o rolo compressor inicial. Quatro músicas emendadas umas nas outras, sem tempo de respirar, com direito a um Jimmy Page babando sobre a guitarra e um Robert Plant igualmente endiabrado com suas dancinhas e caretas que fazia na época do Led Zeppelin. Opa, as quatro músicas eram do Led Zeppelin, será que estávamos presenciando um show do Zeppelin e não sabíamos? Pegadinha? Bom, se foi, nunca foi tão mágico participar de uma pegadinha! Outro detalhe, com o lançamento do Unledded em formato acústico, ninguém em sã consciência esperava aquela avalanche de guitarras e baterias pesadas de que felizmente éramos testemunhas. Alguma coisa estava acontecendo ali, Page estava endemonizado, possuído, estava “enleddizado”, se é que se pode dizer isso. Só sei que estava valendo tudo ali, estávamos de novo na década de 70, presenciávamos mais um show do Led Zeppelin, sem sombra de dúvidas!
Robert Plant fala com o público e apresenta Jimmy Page, que foi massivamente aplaudido e ovacionado, e ambos sentam em um banquinho e começam No Quarter na versão do Unledded, uma ótima versão, diga-se de passagem, só voz e violão com deliciosos efeitos. Na sequência, Page pega um violão de dois braços e entra um músico com um daqueles instrumentos árabes diferentes (e com uma sonoridade incrível!) que eles gravaram no acústico, e depois de alguns minutos de intro com este instrumento, começam Gallows Pole, outro clássico do Led, ou seja, realmente era só Led Zeppelin na veia! O final da música foi animal, de uma energia contagiante. Mas o que veio a seguir foi um dos grandes momentos do show, especialmente para mim que sou louco por este som: Since I’ve Been Loving You vinha para celebrar o centésimo show deles juntos, como Plant fez questão de dizer antes da música começar: “Tonight is a very, very, very, very, very, very specil night to us here on the stage, because you are here with us to celebrate one hundred concert togheter”. Nada mais a ser dito, apenas a sentir. E Since I’ve Been Loving You ao vivo tocado por Mr. Page em sua Gibson, com um Robert Plant totalmente à flor da pele e ainda com direito a teclado e violinos foi um daqueles momentos que respondem o que estamos fazendo aqui, que podem dar sentido a uma existência, ainda que por alguns minutos apenas, mas minutos que podem valer por uma vida inteira…
Enquanto Plant apresenta a banda, Page vai buscar a sua clássica guitarra de dois braços, e já ao primeiro acorde de The Song Remains the Same, a galera vai ao delírio. Lembro de todos ao meu redor cantando essa música, foi realmente de arrepiar. Depois, mais um momento de sentar no banquinho e tocar a linda Going to California, outra que levou o público a outra dimensão com os arranjos de cordas ao fundo. Que momento, que show era aquele, o que era aquilo man! Dali pra frente foi uma loucura só, eu tecnicamente pirei, pois eles tocaram Babe I’m Gonna Leave You, uma das minhas preferidas, uma das músicas mais incríveis já feitas e uma canção que pra mim tem acara da banda, como se fosse um cartão de visitas. Foi something, difícil de descrever em palavras, a galera cantando “Babe, babe, babe, babe”, mais alto que o próprio Plant, foi demais! Fora todo o peso do som casando perfeitamente com os arranjos de cordas… No fim da música eles tocam um pedaço de Stairway to Heaven, para arrepiar todos os pelos do corpo. Pra piorar (no bom sentido, é claro), na sequência eles tocam o mega-hiper-ultra clássico Whole Lotta Love – que dispensa apresentações e tem um dos riffs mais históricos de todos os tempos – em versão alongada e com direito às deliciosas loucuras sonoras de Jimmy Page e uma singela homenagem ao Doors, com um incidental de Break on Through, além de tocarem também um pedacinho de Dazed and Confused, do próprio Zeppelin.
Podia ter acabado ali, teríamos todos ido felizes para casa, totalmente satisfeitos e extasiados. Mas ainda havia ogrand finale, um quarteto esmagador de clássicos, começando por Four Sticks, com vários instrumentos percussivos e arranjos de cordas, uma ótima versão que foi gravada no Unledded. Depois veio outro momento ímpar da noite, era hora de Kashmir, outra música que dispensa apresentações, e na versão maravilhosa do acústico, onde eles conseguiram melhorar ainda mais o que já era lindo. Foram mais ou menos 10 minutos de uma catarse, de um acontecimento mágico, toda a magia de Jimmy Page estava ali, todo o seu esoterismo, todo o seu mistério, toda a sua genialidade. Que versão! Que momento! O que aconteceu em Kashmir é difícil de descrever, só sentindo na pele. Por fim, para “fechar o caixão”, o primeiro bis com Black Dog e o segundo com Rock And Roll, é claro. Ah sim, isso depois de Page ter dito suas primeiras palavras em português ao microfone, ao retornar ao palco: “Muito obrigado, muito obrigado, demais”.
Então meus amigos, esta foi a minha experiência diante do 100º show do Led Zeppelin. Sei que muitos podem discordar, mas o que presenciei em 27 de janeiro de 1996 foi sim um show do Led Zeppelin, sem os outros dois geniais integrantes. Mágico? Surreal? Inacreditável? Sonho realizado? Pode escolher uma ou todas estas definições, que aquele momento vai continuar indefinível, que aquele sonho jamais vai ter fim…
Até a próxima, nos vemos por aí, vivendo ao vivo!

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