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Stones 1995: quando a maior pisou no maior

Sabe aquela coisa que você jura que não vai acontecer, aquele momento que temos certeza que jamais vivenciaremos? E quando um sonho distante e esquecido de repente aparece diante de nós, o que fazer? Tudo isso veio à mente quando me deparei com a notícia que os Stones viriam finalmente ao Brasil – o impensável se concretizaria! A segunda metade da década de 90 começava muito bem, com aquela notícia incrível, aquele acontecimento histórico prestes a se efetivar. E obviamente o palco não poderia ser outro, a maior banda de toda a história do rock só poderia se apresentar no maior estádio do mundo. E assim, pude presenciar os Rolling Stones em sua última apresentação no país, na sua primeira vez em terra brasilis, naquele inesquecível 4 de fevereiro de 1995, em pleno Maracanã.
cidade parou naquele sábado de verão. Eles já haviam se apresentado em São Paulo em três noites, nos dias 27, 28 e 30 de janeiro, e no mesmo Maracanã (para o qual estava indo), na última quinta, dia 2 de fevereiro. A tour dos Stones, que promovia o seu 20º álbum de estúdio, o Voodoo Lounge, fazia parte da sexta edição oficial do Hollywood Rock (em 1975, teve uma edição “não-oficial” apenas com bandas nacionais), que contava também com as apresentações de Barão VermelhoRita Lee e Spin Doctors. Quando finalmente consegui entrar no estádio, fui tomado por toda aquela atmosfera de grandiosidade, algo realmente histórico estava acontecendo ali. Em primeiro lugar, o que era impossível de não se notar e de quase cair para trás com o impacto: o palco. Que palco era aquele man! Jamais eu tinha visto algo do tipo, jamais alguém no Brasil tinha visto um palco daquele tamanho! Como eu havia entrado bem na hora do primeiro intervalo (havia perdido o show do Barão), deu para perceber bem os detalhes, o palco era gigante, o telão era gigante, sem falar na cobra (também gigante!) que se prolongava por cima do palco. Animal, muito animal! Não tenho como não deixar aqui relatado aquelas dimensões que o país via pela primeira vez em um palco: 32 metros de altura72 de largura e 26 metros de profundidade, além de 480 toneladas de peso. Um pouco grande, não?
Spin Doctors foi a segunda apresentação da noite, talvez antecipada por causa da pouca aceitação do público nos outros dias do festival; eles tinham o hit Two Princes, que não parava de tocar nas rádios e MTV Brasil, mas só isso não bastava, o show realmente era fraquinho. Em seguida, a nossa rainha do rock subiu ao palco (ou melhor, no pedacinho de palco reservado para os shows de abertura) e fez um grande espetáculo, deixando a galera no clima do showzão da noite, até porque Rita Lee mais parecia o Mick Jagger de saias, devido à sua performance tão caricata do cantor. Não a culpo, foi até divertido e de certa forma não deixava de ser uma homenagem – com certeza era um momento histórico para ela também. O grande momento se aproximava, estavam todos ansiosos, como quem aguarda o seu time entrar em campo em uma final de campeonato. E naquela noite, todos torciam para um mesmo “time”, o maior de todos, o campeão antecipado: The Rolling Stones!
Luzes apagadas, batuque tribal no ar, holofotes mirando o público como se procurassem o mais insano dentre os fãs, uma qualidade de som incrível! De repente, um susto, a cobra gigante do palco cospe fogo lá de cimaincendiando de vez a galera e levando até os que estavam bem mais atrás, como eu, a sentir o seu bafo quente no rosto. A ação ia começar, e após pouco mais de um minuto que pareceu uma eternidade, eis que surge da lateral do palco Mick Jagger, em carne e osso! Eles começam com Not Fade Away, retratando bem a sonoridade do início da carreira, no começo dos Anos 60, mas eles levam o público à loucura ainda nos primeiros acordes de Tumbling Dice, a segunda do show. Os telões exibiam as imagens dos guitarristas Ronnie Wood e o lendário Keith Richards, empunhando suas guitarras e fazendo suas caretas e performances características, além do endiabrado Mick Jagger indo de um lado para o outro do palco, para delírio de todos rockers ali presentes que esperaram anos, décadas para viver aquele momento“Thank you very much, thank you Rio! Boa noite, bem-vindos ao Voodoo Lounge”, diz Mr. Jagger, conquistando de vez o público com o seu esforço em falar português com a gente, emendando com a You Got Me Rocking, que hoje é um clássico, mas na época era uma música nova, do disco da tour. Mas a galera a recebia já como um clássico, cantando junto o refrão e agitando um monte. Eu fui de pista e de vez em quando tinha a impressão de ver a arquibancada se mexer, o maraca estava completamente tomado por fãs enlouquecidos. Afinal de contas, eram os Stones!
It’s Over NowLive With Me e Sparks Will Fly vieram na sequência, músicas não tão conhecidas assim do grande público, mas que agitaram também, especialmente Live With Me, do ótimo e polêmico disco Let It Bleed, de 1969 –“É muito bom estar aqui, obrigado por esperar”, disse Jagger, dentre outras coisas, antes da banda começar a tocá-la, para delírio generalizado dos fãs. Após Sparks Will Flyum dos momentos mais esperados da noite(I Can’t Get No) Satisfaction. Nem preciso dizer que nesta hora eu realmente vi as arquibancadas se mexendo, não era ilusão de ótica, nem em final de campeonato eu tinha vista algo parecido, eu que ia muito ao estádio naquela época. Tinha muita gente de cabeça branca ou grisalha ao redor, eu podia ver em seus rostos toda a recompensa de uma espera de vinte ou trinta anos por aquele momento redentor de gritar do fundo da alma “I CAN’T GET NO! SATISFACTION!”. Foi uma catarse, uma celebração, um ápice na história de muitos ali. Depois desta, só tocando mesmo umas mais lentinhas, que a dupla Jagger & Richards faz tão bem. A ótima Out of Tears, outra nova na época, veio para amansar um pouco o público (será?), mas a outra da sequência, mesmo sendo lenta, acendeu de novo a massa roqueira. Angie, um clássico dos Stones! Foi lindo, um momento mais acústico onde a galera cantou junto, emoção à flor da pele
Depois de umas lentas e de um momento mais voz e violão, nada melhor do que um blues para reacender a chama, e os Stones sabem como ninguém como aplicar esta fórmula. Midnight Rambler, e seus costumeiros quase dez minutos ao vivo, veio para mostrar toda potência dos caras no palco e todo Rock and Roll que exala desta magnífica banda. Pra mim, foi um grande momento do show, um dos melhores da noite, outra ótima canção de Let It Bleed, que fica melhor ainda ao vivo, com direito a duelos de guitarra e gaita! Diga-se de passagem, Mick Jagger é muito bom na gaita. Na sequência, Rock and a Hard Place e I Go Wild, outra nova, e ao fim, Mr. Jagger pergunta em português “Vocês querem cantar?”, iniciando o clássico Miss You, arrancando o famosos “Uu uu uu u”  do público logo no início da canção. Miss You também foi bastante alongada, com destaque para a dança da backing vocal Lisa Fischer em frente ao piano, provocando gritos insanos da galera (especialmente dos marmanjos), e da ótima interação entre Jagger e o público, além do maravilhoso ‘momento sax’ do som, tocado magistralmente por Bobby Keys. Foi outro grande momento do show, sem dúvidas.
Terminada a Miss YouMick Jagger inicia a apresentação da banda, começando pelos músicos de apoio, indo dabacking vocal Lisa Fischer (ou “A gatíssima Lisa Fischer”, com direito a língua com língua entre ela e Jagger) até o baixista Darryl Jones (foi a primeira tour sem Bill Wiman, o baixista original da banda). Mas por que destacar este momento do show? Explico, porque em seguida Jagger diz “E na bateria, o supeeeeer Charlie Watts!”, e o que se segue ficou marcado, ficou eternizado na mente de muitos que estavam ali, com certeza! Jamais vi alguém ser ovacionado daquele jeito, o tempo parou, Charlie aparecia no telão visivelmente sem graça, parecia um gol do título aos 45 do segundo tempo – teve até o tal do “Uh tererê”, que estava tão em voga na época. A apresentação da banda continuou, com Ronnie WoodsKeith Richards e Mick Jagger também sendo celebrados pelo público, mas nada que chegasse perto do que aconteceu com Charlie. O show seguiu com Honky Tonk Women, uma das mais esperadas da noite, deliciosamente alongada, para delírio dos fãs. Na sequência, Keith Richards assume os vocais em Happy e The Worst, e depois tudo se apaga no palco e começa a passar um desenho muito louco no telão. Pensei comigo mesmo, isto cheira a clássico! Não deu outra, era a hora de Symphaty for the Devil, com direito a Mick Jagger de cartola e o “uhu, uhu” cantado em uníssono pela galera. O show segue com Monkey Man eStreet Fighting Man e volta a pegar fogo com a incrível sequência de Start me Up, uma das que a galera mais cantou, pulou e celebrou, e a dobradinha It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It) e Brown Sugar. O bis teve Jumpin’ Jack Flash, certamente também uma das mais esperadas da noite, tornando o final apoteótico, com muitos efeitos visuais e fogos de artifício no fim da apresentação, o que não era muito comum na época.
Então é isso, ver os Rolling Stones pela primeira vez foi uma experiência única, difícil tentar descrever o sentimento, difícil esquecer qualquer momento. Ainda os veria mais duas vezes em ótimas e inesquecíveis apresentações, mas aquele 4 de fevereiro de 1995 ficou para sempre na memória e no coração. Com certeza foi uma das maiores “lambidas” que eu receberia em toda a minha história no mundo do rock, e ninguém melhor do que a maior banda de rock de todos os tempos para tal. Naquele sábado, todos eram uma torcida só no Maracanã, uma torcida que vibrava com a vitória do bom e velho Rock and Roll, e os Stones deram uma goleada no coração e na mente de todos ali presentes!
Até o próximo show!


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