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Retorno da Donzela de Ferro em grande estilo


Devo-lhe dizer de antemão, caro leitor, que hoje vamos falar de amor, vamos falar de paixão. Não, não se trata de um romance, mas é um caso sério, muito sério. Não me perguntem o motivo, certamente não é a banda mais importante da história do rock, mas o que sinto pelo Iron Maiden é algo difícil de explicar, talvez o que mais se aproxime seja o sentimento que o torcedor tem pelo seu time do coração. É isso, o Maiden é a minha banda do coração! Eu já tinha visto a banda em 1992, na tour de Fear of the Dark, mas o que aconteceu naquele 19 de janeiro de 2001 foi histórico, foi inesquecível, foi um retorno avassalador da donzela de ferro em grande estilo!

Quem já foi a um show do Iron Maiden, sabe que se trata de uma experiência única, diferente de qualquer outra coisa no quesito música ao vivo – o envolvimento é muito grande, o público faz parte intensamente do show. A palavra que define ver o Iron ao vivo é esta, “intenso”, quem já passou por isso, sabe que não estou exagerando. Porém, durante quase toda a década de 90, a banda sofreu uma incrível baixa, primeiro com a saída do guitarristaAdrian Smith, no final dos anos 80, e depois com a saída do vocalista Bruce Dickinson, após a tour do disco Fear of the Dark. Foram anos sombrios, a banda lançou dois álbuns medianos (The Factor X e Virtual XI, que juntando os dois, aproveitam-se só duas ou três músicas como realmente significantes), fora o fato que a voz do novo frontmanestava muito, mas muito distante do ideal para o Maiden. Portanto, quando foi anunciada não só a volta de Bruce Dickinson, mas também de Adrian Smith, e que, além disso, a banda passaria a ter três guitarristas, não foi de se espantar a euforia incontrolável dos fãs. Aquele show no Rock in Rio 3 já entrava para a história antes mesmo de começar…
Era o meu terceiro Rock in Rio, que naquele ano voltava finalmente a ser realizado no Rio de Janeiro e no seu local de origem, mais ou menos onde ocorreu a histórica primeira edição do festival, uma edição que é importante frisar que é incomparável até hoje. O Iron Maiden havia lançado no ano anterior o excepcional Brave New World, o 12º disco de estúdio e um dos melhores da banda (com certeza entre os três melhores!), um disco com ótimas músicas, grandes vocais e lindos arranjos instrumentais. A banda voltava com tudo, parecia estar no seu auge, mal podíamos conter nossa empolgação ainda no trajeto para a Cidade do Rock, éramos como três crianças indo para um parque de diversões, eu, Luiz e Enyo. Ah, tínhamos voltado com a nossa banda, que agora tinha outro nome e outro estilo musical, mais voltado para o rock clássico. O momento era tão especial que eu e Luiz resolvemos ultrapassar o trauma do Suicidal e resolvemos levar o Enyo junto com a gente. Chegamos cedo, queríamos aproveitar cada momento, queríamos respirar logo aquela atmosfera do dia mais pesado do festival. Eu era o veterano e acho que a emoção de estar mais uma vez em um Rock in Rio era bem nítida aos meus amigos.
O Iron Maiden era o grande motivo de estarmos ali, porém dois shows anteriores também merecem destaque: o doSepultura, que literalmente levantou poeira e marcava a estreia internacional do novo vocal Derrick Green, e o doRob Halford, na época ex-vocalista do Judas Priest e com uma ótima carreira solo, além da passagem pela bandaFight. Sobre o show do Halford, é preciso dizer que foi um dos melhores de todo o festival – na minha opinião, só não foi melhor do que o do Iron, que foi algo muito fora de sérieHalford fez um show matador, mesclando clássicos do Judas, de sua carreira solo e do Fight, um show de heavy metal pra ninguém botar defeito, um excelente “aperitivo” para o grande show da noite e de todo o Rock in Rio 3. Terminada a apresentação de Rob Halford, era hora da contagem regressiva, de tentar suportar os intermináveis e longos minutos de uma espera de quase 10 anos, uma espera que finalmente chegaria ao seu fim em poucos instantes, pois em breve atravessaríamos um portal para outra dimensão, para o maravilhoso reino dos reis do heavy metal!
Luzes apagadas, histeria total! Começa uma intro muito bacana, com uma ótima iluminação, um palco no melhor estilo Iron Maiden em nossa frente. O espetáculo ia começar! Acho que comecei a ficar rouco já ali, durante aquele momento, mesmo com todo o preparo vocal de alguém que se dizia vocalista de uma banda… Mas quem disse que quando somos completamente tomados pela emoção, lembramos da disciplina? De repente, Adrian Smith dá início aos primeiros acordes de The Wicker Man e começa o massacre, arrancando lá do fundo da alma de todos os presentes o Your time will come! do refrão. Não tinha uma alma viva ali que não tinha ido ver o Iron Maiden, não havia ninguém ali que não tivesse sonhado com aquele momento. Ghost of Navigator veio a seguir, agitando ainda mais a galera, e a excepcional Brave New World veio logo depois, terminando a primeira sequência do show, que também era a primeira sequência do disco novo. Disco novo, músicas novas? Isso parecia muito distante, pois o público as recebia e cantava os refrãos como se fossem clássicos da banda. Não tenho como não destacar apotência do vocal de Bruce Dickinson em Brave New World, que pra mim é uma das melhores músicas do Iron Maiden, um musicão mesmo!
“Something old, something new… Something from our jurassic period, Wratchild!”, anuncia Dickinson, e ninguém mais conseguia se segurar no chão, pulávamos todos em uníssono. Sabe aquele momento em que nos entregamoscompletamente, que chegamos a abraçar desconhecidos de tanta felicidadeJust like that! Ao fim da música, nem deu pra respirar direito, Janick Gers começa a tocar o riff de 2 Minutes to Midnight e a casa vai abaixo novamente! Era difícil não se emocionar. Tudo muito rápido, tudo muito intenso… Afinal de contas, era um show do Iron! Quando eu conseguia me concentrar um pouco no palco, era mais alucinante ainda ver a empolgação de toda banda, eles também pareciam crianças se divertindo num playground, o clima era de êxtase total, tanto da parte deles, quanto da parte do público. Passado o rolo compressor de dois clássicos seguidos, Bruce Dickinson dedica a próxima música a todos os fãs que estavam ali, todos os fãs do Iron Maiden, todos os fãs de heavy metal em todo o mundo, e anuncia outra nova, Blood Brothers, que também pode tranquilamente ser considerada como uma das melhores da banda. Foi um dos momentos mais emocionantes do show, todos cantando “We’re blood brothers!”fazia muito, mas muito sentido naquela hora, foi simplesmente demais!
Terminada a Blood Brothers, estávamos todos numa espécie de transe, hipnotizados, inteiramente“maidenizados”… Éramos todos uma só família, uma só vontade, uma só intenção, completamente vivos, completamente ao vivo! E o que veio a seguir parecia fazer parte de um sonho, um sonho que eu pensei que jamais fosse se realizar: eles tocaram Sign of the Cross, uma das melhores músicas da banda, mas que era a primeira do disco The Factor X, e que portanto tinha sido gravada com o outro vocal. Realmente era algo que eu jamais pensei que fosse presenciar, nem preciso dizer que a música ficou maravilhosa na voz de Bruce Dickinson! Foi com muito gosto que eu e tantos outros, igualmente surpresos e encantados, cantamos bem alto o refrão. Esta música é muito perfeita, todo o instrumental é magnífico, acho que a hipnose coletiva chegou ao auge neste som, foi aquele momento de concentração, ninguém olhava para o lado, só havia olhos para o palco. The Mercenary (outra nova) veio para tirar a galera do transe, mas foi a seguinte que fez o Rock in Rio explodir, nada mais, nada menos que o mega-ultra-clássico The Trooper, uma das “cavalgadas” mais famosas da história do Heavy Metal! Já na troca de cenário atrás do palco, quando entrou aquela imagem do Eddie com a bandeira da Grã-Bretanha ao fundo, já sabíamos que era ela que viria para “quebrar tudo”. Foi o máximo da empolgação, o máximo do delírio generalizado, o público cantou a música inteira junto com a banda, com destaque para a explosão do“Oooooooooh”, o refrão mais simplório e genial de todos os tempos! Se acabasse ali, iam todos felizes pra casa… Mas tinha mais, muito mais!
The Trooper tinha deixado todos à flor da pele, mas a sequência seguinte simplesmente foi surreal demais: Dream of Mirrors, The ClansmanThe Evil That Men Do e Fear of the Dark. Não sei nem direito o que dizer, foi um massacre, uma avalanche, ficamos todos “soterrados” com o que havia de melhor no que se refere a composições geniais, no que se refere a músicas históricasDream of Mirrors deu início ao bloco da noite, uma música nova que arrancou palmas de todos, uma música que já era um clássico em sua primeira apresentação ao vivo no país, um musicão com M maiúsculo! Dickinson orquestrou bem as participações da galera na música, coisa que ele sempre fez muito bem, um frontman como nenhum outro, talvez só o Freddy Mercury tinha tanto domínio do palco e do público como ele. The Clansman, outra que foi gravada pelo vocalista Blaze Bayley, teve uma execução magnífica por parte da banda, foi contagiante, foi mágico todos cantando bem alto o “Freedom, freedom, freedom, freedom!” –  não tinha como não lembrar de Coração Valente, pois a música fala sobre o mesmo tema do filme, além de Dickinson ter agitado a bandeira da Escócia por várias vezes durante a música. Ufa, que dobradinha! Mas eis que, não satisfeito com toda aquela loucura coletiva, Bruce Dickinson diz: “The good that men do is oft interred with their bones… But the evil that men do lives on…”, e a banda começa The Evil That Men Do, uma das mais esperadas da noite. Tão significativa era a música que ela foi escolhida para a primeira aparição do mascote mais famoso da história do rock, era a hora do Eddie invadir o palco durante o solo de guitarra e levar todos ao delírio!Eddie e Janick Gers encenaram uma luta e, ao fim da música, o mascote mais querido do heavy metal saiuovacionado pelo público, com todos gritando o seu nome.
“A light in the black… oh it’s just the fear of the dark”, e assim começa a música mais celebrada da noite, o mega-ultra-super-clássico Fear of the Dark. Foi o ápice da apresentação, o ponto G, o clímax total! Foi a sensação mais potente que senti até hoje: banda, público, o ar, o chão, tudo era uma coisa só, tudo parecia se mexer em conjunto, na mesma frequência, na mesma vibraçãoIron Maiden é uma daquelas poucas bandas em que o fã decora os solos de guitarra e o reproduz com o famoso “Ooooooooh”, e foi justamente isso que aconteceu tanto na intro quanto no meio da música, nos arranjos de guitarra que antecedem o “Fear of the Dark!”, que foi cantado massivamentepela galera numa altura que deixou os próprios músicos da banda surpresosArrepia só de lembrar, foi outra música que o público cantou junto, especialmente o famoso início e o também famoso “You!” que Dickinson diz, provocando para que cantem junto com ele. Sensacional! Na sequência, “Scream for me Brazil, Scream for me Brazil! The Iron Maiden!”, e começa a música que dá o nome à banda, para acabar de acabar com a gente, com direito a mais uma aparição do Eddie, desta vez em formato gigante. Depois, vem aquela saidinha básica do palco, com destaque para a corridinha do simpaticíssimo batera Nicko Mc Brian, porém a banda volta com The Number of the Beast, música que dispensa apresentações e que teve aquela citação do início declamada em uníssono por todos. De arrepiar! Nem preciso dizer que um dos refrães mais famosos do heavy metal foi cantado bem alto por todos. E também não preciso dizer que as três guitarras de Dave MurrayAdrian Smith e Janick Gers estavamperfeitas, assim como o baixo do mestre Steve Harris
catarse pra mim aconteceu na próxima do set. A cada música que passava, a partir da metade do show, eu esperava aquela famosa puxada de prato que dá início a Hallowed Be Thy Name, e finalmente ela havia chegado. O grande momento havia chegado! Esta é A música do Iron, aquela que melhor define a banda, aquela que tem a cara da banda, a música que me fez prestar atenção na banda. E não acho que isso só aconteceu comigo, porque a histeria foi total quando enfim tocaram os sinos da intro. Foi a libertação total, foi o sentir-se pleno e agradecido por estar ali, vivenciado aquele momento, participando daquela experiência única. Mais uma que teve o seu início cantado massivamente, que foi poeira voando do chão, em que fomos um só corpo e um só coração. No fim da música, Bruce Dickinson manteve o último “eeeeeh” por tanto tempo que o Nicko chegou a levantar da bateria e ficou olhando espantado pra ele, inclusive bateu palmas com a baqueta, foi um momento muito ímparSanctuary veio na sequência, com destaque para a sintonia total de Dickinson conosco, ele realmente tinha o público na mãoRun to the Hills fechou o show, outra grata surpresa, tanto pela música quanto para o belíssimo vocal, onde Bruce Dickinson conseguiu reproduzir a (difícil) melodia da voz no refrão exatamente como na versão original de 1983, lembro que ficamos muito impressionados com isso lá na hora. Foi realmente um grand finale para um grande show!
Então é isso meus amigos, participar daquele dia mágico, prestes a completar os meus 25 anos de idade, foi algo sem preço, foi algo que eu guardo com muito carinho em meu coração, algo que eu jamais esquecerei. Escrever este texto foi muito especial pra mim, pois pude sentir novamente toda aquela energia que senti em 19 de janeiro de 2001, foi como confirmar mais uma vez que valeu muito a pena a experiência de presenciar aquele show histórico do Iron Maiden, que acabou virando CD e DVD no ano seguinte, o que obviamente me fez correr para as lojas assim que foi lançado. E por fim, só tenho uma última coisa a dizer: assistir um show do Iron Maiden é como ter um filho, só passando pela experiência para saber do que se trata.
Um forte abraço e nos vemos por aí, nos palcos da vida!

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