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A ascensão de Saturnus

Ficamos sabendo do festival Under The Doom logo que viemos para Portugal e, desde então, aguardávamos por este momento, pois teríamos a oportunidade de conferir ao vivo duas bandas que gostamos muito: Saturnus e Mourning Beloveth. O death/doom metal está entre os meus estilos favoritos, venho acompanhando a história deste subgênero do doom metal (e consequentemente do heavy metal) desde o início da década de 90, onde bandas como My Dying BrideParadise Lost e Anathema ajudaram a popularizar o estilo. Enfim, o último fim de semana de fevereiro de 2015 havia chegado e estávamos lá, eu e Grazi, para vivenciar momentos inesquecíveis em nossa longa caminhada ao vivo!
Under The Doom aconteceu no RCA Club, em Lisboa, e a primeira noite estava marcada para 27 de fevereiro, uma sexta-feira – chegamos lá bem cedo, pois queríamos pegar um bom lugar no mezanino para obter boas imagens. Entramos um pouco antes das 21h e às 21:05h começou a primeira banda, a Bosque, a atração portuguesa da noite, que logo chamou a nossa atenção pela ausência do baixo e pelos capuzes negros dos três integrantes. A banda, que completa 10 anos de estrada neste ano, fez uma boa apresentação com suas duas guitarras e bateria e seu som arrastado, o chamado funeral doom. Em seguida, um dos melhores shows do festival com os espanhóis do Autumnal, uma banda que vem crescendo exponencialmente no cenário internacional. Completando a noite, antes da atração principal, duas bandas alemãs: a Ophis, que fez um bom show, mas que eu esperava um pouco mais devido ao que conhecia da banda, e a Lantlôs, que surpreendeu trazendo uma atmosfera um tanto diferente para a noite, em músicas com arranjos muito criativos, com destaque para o batera Felix Wylezik.
A atração principal da noite eram os dinamarqueses do Saturnus, uma das bandas mais antigas do death/doom metal, na atividade desde 1991. Apesar da longa estrada, o Saturnus só possui quatro discos oficiais (os chamados full-lenght aqui na Europa), todos absolutamente maravilhosos. Eu sinceramente não sabia o que esperar deste show, apesar de ter os meus palpites – e o primeiro deles eu acertei – pois eles abriram com Litany of Rain, do Saturn in Ascencion, último trabalho dos caras, de 2012.
Saturnus no palco do RCA Club
A música de abertura já anunciava todo o clima do show, uma perfeita mistura de riffs pesados com lindas melodias, especialmente as executadas pelo ótimo guitarrista Rune Stiassnyum dos melhores do estilo, senão o melhor. Na sequência, veio I Love Thee, do Paradise Belongs to You, disco de estreia da banda, de 1996, mantendo o público hipnotizado pela atmosfera sonora da banda, era realmente uma viagem e tanto! O teclado de Mika Filborne também ajudava a manter todo o clima alucinógeno do show…
Com as duas primeiras, o Saturnus já tinha o público nas mãos, já estávamos completamente conquistados. O sempre simpático vocalista Thomas Jensen então anuncia a ótima Wind Torn, do último disco, uma música que está entre as minhas favoritas da banda, realmente um som muito especial. Foi mais uma hipnose coletiva, pena que deu um problema técnico no início da música, que foi resolvido por Rune, pois os técnicos de som da casa não estavam conseguindo resolver. Mas isso não foi problema, eles recomeçaram a música e nos mantiveram“entorpecidos” até o último acorde.
Thomas Jensen se divertindo
Em seguida, Thomas anuncia um clássico do SaturnusEmpty Handed, do Martyre, segundo disco da banda, uma das “mais rapidinhas” que eles fazem tão bem. Empty Handed agitou bastante o público, veio no momento certo (osetlist do show foi muito feliz, diga-se de passagem), foi aquela hora de bater cabeça de forma mais intensa, lá de cima era curioso ver as cabeças indo pra frente e pra trás no mesmo ritmo , em “uníssono”. Os integrantes da banda também agitavam muito no palco, com destaque para o baixista Brian Hansen e o guitarrista Gert Lund, que estavam posicionados no palco à direita do batera Henrik Glass. Tudo fluindo muito bem, toda a banda parecia estar se divertindo bastante.
Depois de um momento mais agitado, agora era hora de acalmar os ânimos com a linda All Alone, do Veronika Decides to Die, o terceiro e talvez o melhor disco do Saturnus, o trabalho que foi um divisor de águas na carreira da banda. Foi um belo momento, a canção realmente é muito bonita, não tinha como não se sentir agraciado por estar ali, não tinha como não ser tomado pela catarse musical ímpar que acontecia diante dos olhos e da alma. All Alone foi a quinta música do show, bem no meio da apresentação, um rito de passagem para a segunda metade do repertório, que iniciou com Murky Waters, também do ótimo Veronika Decides to Die, uma das músicas que mais mexeu com o público. A esta altura estávamos lá embaixo no meio da galera já há algum tempo, éramos parte da massa e estávamos plenamente satisfeitos de sermos mais duas cabeças a se mover em uníssono com tantas outras. Mas o grande momento do show estava por vir logo adiante, e seria absolutamente mágico e inesquecível
Brian Hansen viajando no som
O “jogo já estava ganho”, mas agora era hora do “gol de placa” (como se diz na linguagem futebolística), pois duas músicas que eu dava como certas no show pediam passagem. Primeiro, foi a vez de Forest of Insomnia, do Saturn in Ascension, uma música que reservaria para nós um dos instantes mais emocionantes da noite – Forest of Insomnia é daquelas que pode tranquilamente ser considerada como um musicão. Estavam todos tomados,inclusive os integrantes da banda, tudo e todos eram um só, os que estavam no palco e os que estavam na plateia, a música crescia gradativamente, indo para o seu apogeu, que começou mais ou menos a sete minutos de sua execução, logo após a “quebradinha” lenta, que anunciou a apoteose, o belíssimo solo de guitarra Rune Stiassy, que neste exato momento me arrepia só de lembrar, uma melodia que ficou martelando em minha mente até o dia seguinte, daquelas que você fica cantarolando sem se dar conta. Na sequência, Mika Filborne fica dedilhando o seu teclado com aquele som característico de piano, e eu já previa o que vinha pela frente, nada mais, nada menos que I Long, a música que me fez ficar fã do Saturnus, uma das canções mais lindas e perfeitas da história do heavy metal, um casamento perfeito entre peso e melodia. Nem preciso dizer que naquele momento chegávamos ao ápice do show, adentrávamos o paraíso sonoro, era literalmente a ascensão total do Saturnus.
Pra fechar a noite, outro clássico da banda, a Christ Goodbye, do primeiro disco, mais uma daquelas mais rapidinhas, perfeita para fechar o setlist. Aliás, perfeição talvez seja a palavra que descreva melhor a escolha do repertório, poucas vezes vi uma escolha tão feliz, tão coesa quanto essa. No fim, conseguimos conversar com os integrantes da banda, todos muito simpáticos e receptivos. Quando falei que éramos do Brasil, o Rune chegou a dizer surpreso “It’s something else”. Eu não disse na hora, mas deveria ter dito que o show do Saturnus que tinha sido Something Else!
Até a próxima viagem sonora!

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