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The Cure: No topo por 17 anos


Era o primeiro dia do último Hollywood Rock da história, o festival que marcou os Anos 90 em terras brasileiras. Era a primeira vez que eu estaria de frente com uma banda que sempre morou no meu coração, que mesmo em tempos onde eu praticamente só escutava Heavy Metal (especialmente suas vertentes mais pesadas – Thrash e Death Metal) sempre havia espaço para tirar uma hora do dia para ouvir/sentir The Cure, principalmente o disco Wish (1993), que até hoje eu digo que é um dos trabalhos musicais que mais me influenciaram e um dos discos que eu mais gosto. Sendo assim, foi com muita expectativa que eu fui para a Praça da Apoteose no dia 26 de janeiro de 1996, mas sem noção de que assistiria um show que entraria para a minha história pessoal como uma dasexperiências mais surreais de todos os tempos.

Eu tinha acabado de completar 20 anos e tinha na bagagem duas edições do Rock in Rio e quatro Hollywood Rock, onde pude conferir shows de AC/DCGuns’N’RosesRolling StonesAerosmithNirvanaAlice in ChainsRed Hot Chilli PeppersFaith No MoreTitãsSepulturaLiving ColourSkid RowJoe CockerPrinceBilly IdolSantana,Robert Plant (que eu veria no dia seguinte junto com Jimmy Page!), sem contar apresentações individuais de RamonesIron MaidenMidnight OilSlayerPanteraMetallicaKreator e Ozzy Osbourne, dentre outros. Já era um bom caminho percorrido na história de um fã de apresentações ao vivo, mas ainda faltavam algumas bandas muito significativas, como Pink Floyd e The Cure. Tudo isso passou pela minha cabeça quando eu enfim adentrei a Praça da Apoteose para conferir a minha quinta edição do Hollywood Rock, sem saber que aquela seria a última. Mas a primeira noite (assim como a segunda) vinha para garantir que este festival acabaria em grande estilo e teria shows memoráveis, que ficariam por muito tempo no coração dos fãs de música ao vivo. No meu, posso garantir que moram até hoje…
Em contrapartida aos meus 20 anos de idade, o The Cure completava 20 anos de carreira naquele ano. Era realmente um momento muito especial, a banda fazia os dois primeiros shows do ano no Brasil, era a segunda vez que visitavam o país, isto após quase 10 anos, ou seja, tinha toda uma nova geração ansiosa por ver os caras, na qual eu me incluía. A cada show que terminava, a ansiedade era maior. O primeiro dia do festival tinha começado com Pato Fu e Supergrass, mas foi a partir do show do White Zombie que a coisa começou a ficar interessante, os caras fizeram uma ótima apresentação, com destaque para o endiabrado Rob Zombie. Depois veio o Smashing Pumpkins, outro ótimo show, ideal para esquentar o pessoal antes da viagem sonora do Cure. Até então, os shows eram normais aos olhos de tantos e tantos da geração MTV Brasil, que vinham acompanhando todos aqueles shows e festivais ao longo dos anos, davam a adrenalina necessária, mas a viagem psicodélica onde entraríamos em instantes não era nada comum, muito longe disso.
Demorou um pouco para começar o show da atração principal, mas enfim a apoteose na Apoteose teve início com um cenário bem dark, com muitos efeitos visuais e fumaça, como era de se esperar, e no meio daquilo tudo surge Mr. Robert Smith, o ícone, o ídolo de toda uma geração, de todo um estilo musical. Smith sempre chamou a atenção para si, uma figura muito marcante, com identidade própria, tanto no visual quanto em sua voz e melodia de suas composições, mas era impossível também não destacar o baixista Simon Gallup vestido de vestido e sempre com sua performance visceral – sempre achei o baixo no Cure muito autêntico, coisa que não é muito de se perceber por aí. Eles abriram com a excelente e até então desconhecida Want, que era a primeira canção de Wild Mood Swing, que seria lançado só em maio daquele ano, mas logo depois Fascination Street e A Night Like This vieram pôr as cartas na mesa, anunciando oficialmente que o The Cure estava na área! Eu particularmente adoro estas duas, sempre estiveram entre as minhas favoritas, portanto é quase desnecessário dizer que “o jogo já estava ganho”, eu estava completamente tomado pela atmosfera do show. Após estas três primeiras, Smith troca suas primeiras palavras com o público, dizendo em português: “Obrigado, boa noite! Essa música se chama Pictures of You.”
Pictures of You, uma das mais esperadas da noite logo de cara, que momento, que som! Em seguida, Lullaby, com a famosa dancinha de Robert Smith, que fazia a galera interagir a cada gesto esquisito do ídolo. Comecei a ficar desconfiado, por que tantos clássicos logo no início, será que o show seria curto demais? Havia algo no ar, que eu nem desconfiava do que se tratava, por isso decidi continuar curtindo o show, respirando toda aquela atmosfera sonora e melódica tão peculiar que pouquíssimas bandas têm o dom de reproduzir. Na sequência, Just Like Heaven veio para levantar a galera e a maravilhosa Trust veio justamente para fazer o contrário, para deixar todos em estado de sublime encantamento, deixar todos em outro estado de espírito – parecia que os caras brincavam com as emoções do público. Trust é do disco Wish, uma daquelas músicas que eu coloco no pedestal, de uma beleza ímpar, lembro que a primeira vez que a escutei, fiquei imóvel olhando para o aparelho de som, coisa que acontece até hoje. Em seguida, Smith anuncia mais uma música nova, Jupiter Crash, e logo depois vem High, reascendendo a galera, e Dressing Up, que volta a fazer o “efeito sanfona” no público. The Walk e Let’s Go to Bed vieram a seguir, transformando a Apoteose numa gigante pista de dança do final dos Anos 80, com destaque para Robert Smith deixando a guitarra de lado e ficando só com o microfone, indo de um lado a outro do palco e interagindo um pouco mais conosco.
Smith pega de volta sua guitarra e o The Cure toca Push, mas foi a próxima música do set que realmente levantou a galera e foi um dos momentos altos da noite: “Essa música se chama Friday I’m in Love”, assim ele anunciou em português aquele mega hit que muita gente estava esperando e que agitou bastante o público. Aproveitando o bom momento, o também mega clássico Inbetween Days vem na sequência, para acabar de matar o fã do coração. Mas pra mim o grande momento veio logo a seguir, com From the Edge of the Deep Green Sea, do disco Wish, uma das músicas que eu mais estava esperando, um lado B pra lá de especial. A minha noite valeu completamente ali, naquele som, naquela dança improvisada no meio do público, naquela viagem sonora e transcendentalShiver and Shake veio na sequência, que eu na época não conhecia, foi o momento de tentar descansar um pouco, apesar da música agitada. Desintegration fez regressar um pouco o clima viagem do show, que terminou com a ótima End, também do disco Wish.
Bom, terminar mesmo sabíamos que não tinha terminado, apesar de aproximadamente uma hora e quarenta de show – mas era o The Cure, com certeza poderíamos esperar pelo menos um pouco mais, pelo menos mais um bis. Lembro que estava muito calor, o próprio Robert Smith havia falado em português que estava muito calor, não podíamos esperar tão mais assim da banda, ainda mais porque Smith andava doente naqueles dias do festival. Mas enfim ele retorna ao palco e anuncia em português: “Esta é uma música muito antiga”, e eles começam Three Imaginary Boys, faixa-título do primeiro disco da banda. Eu particularmente achei a música um tanto morna para um bis, mas o que veio a seguir fez com que eu esquecesse completamente qualquer “achismo”, pois Boys Don’t Cry10.15 Saturday Night e Killing An Arab vinham para colocar o lugar abaixo, foi a redenção, a cereja do bolo. Foi realmente um grande momento, os caras se despediram e mais uma vez deixaram o palco. As pessoas então começaram a se deslocar para a saída, quando de repente eis que a banda volta ao palco para mais um bis, com Robert Smith com a camisa da seleção brasileira de futebol (um ícone dark vestido de amarelo, dá pra imaginar?).
Eles voltaram com Mint Car, uma música de Wild Mood Swings ao estilo de Friday I’m Love que, apesar de nova, caiu logo no gosto da galera, por ser bem pra cima e dançante. Close to Me veio na sequência para novamente colocar o lugar abaixo, pra mim é certamente uma das músicas mais características do Cure, realmente tem a cara da banda. Foi um ótimo momento, Smith novamente largou sua guitarra e foi se divertir com uma pequena câmera que segurava em sua mão, tratando de registrar pessoalmente aquele momento também. O clássico Why Can I Be You veio para fechar o set, colocando todo mundo pra dançar, realmente um grande final de show. Eles deixaram o palco mais uma vez, mas agora todos estavam desconfiados, ninguém arredou o pé do local, até porque as luzes não se acenderam como nos finais dos eventos, nem tocou nenhuma música “expulsadeira”, como de costume. E valeu a pena esperar, porque eles voltaram mais uma vez com um final mais perfeito que se podia esperar, algo que ficou na minha memória, pois eles tocaram talvez as duas músicas que eu mais gosto da banda. Primeiro,Charlotte Sometimes, algo que eu sinceramente não esperava, então dá pra imaginar a minha agradabilíssima surpresa e a minha previsível cara de bobo durante toda a música, cara de bobo que alternava com olhos fechados, pelos arrepiados e mãos agradecidas aos céus. Poucas músicas mexeram tanto comigo em um show, realmente histórico pra mim. E a última música também não ficava atrás, não podia ser mais perfeita, The Forest, um musicão, uma catarse, uma experiência transcendental! Foram 10 minutos de som que tem um cantinho todo especial na minha memória.
Então foi isso meus amigos, ver o The Cure pela primeira vez foi algo realmente sublime, uma experiência única! Sempre cito este como um dos grandes shows que assisti até hoje, algo que ficou marcado, como se eu tivesse sido iniciado em algo místico. Com quase três horas de duração, por 17 anos ele foi o show mais longo que eu tinha visto, só sendo superado pelo próprio The Cure em 2013, quando eles tocaram 40 músicas por três horas e quinze minutos de apresentação! Bom, mas isso é assunto para um outro dia…
Até a próxima, e que venham mais shows históricos em nossas vidas ao vivo!

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