Subscribe Us

Header Ads

Nem mesmo uma bomba parou este show

Hoje vamos falar de um show histórico por vários motivos, de uma banda que dispensa apresentações, ou melhor, de uma banda que era sinônimo de apresentação ao vivo. Dizer que os Ramones estavam no auge em 1992 é pouco, Ramones era uma das únicas bandas que “agradavam gregos e troianos”, que todos respeitavam, que todo mundo queria ver, seja punksrockersheadbangers ou até mesmo quem gostava de um som mais pop ou só conhecia a Pet Cemetary. Todos queriam ver os Ramones. E este dia enfim havia chegado – 23 de setembro de 1992. Pra começar bem a Primavera!


Verdade que os Ramones já tinham tocado no Brasil, mas era a primeira vez que tocaria no Rio de Janeiro. Eu estava montando a minha primeira banda e os Ramones tinham grande influência no som, tocávamos várias deles nos ensaios, eu não conhecia ninguém que não tinha pelo menos um disco dos caras. Eles tinham acabado de lançar o Mondo Bizarro, mas o que todos escutavam mesmo na época era o Loco Live, que a banda lançou em 1991. Era um disco ao vivo dos Ramones (o segundo da carreira), um disco onde podíamos sentir toda a potência e energia da apresentação ao vivo da banda, um disco que dava vontade de estar lá e testemunhar a catarse. Quando foi anunciado o show dos Ramones no Canecão, que era A casa de shows do Rio de Janeiro na época, o momento pareceu perfeito. E quase foi, não fosse um episódio extremamente lamentável.
Canecão estava lotado, foi uma dificuldade para entrar, isso depois de ter que enfrentar uma fila grande e demorada. Enfim, conseguimos entrar, eu e meu parceiro de shows na época e também baterista da minha banda, o Cláudio Prometeu. Fomos andando a passos curtos, pedindo licença para passar e tentando encontrar um bom lugar, mas a casa estava totalmente tomada pelos fãs insaciáveis, sedentos por uma noite inesquecível de rock! O que conseguimos foi um lugar bem espremido na arquibancada lateral à esquerda de quem está de frente para o palco, bem ao lado da entrada dos banheiros. Estavam todos concentrados esperando pelo início do show, uns mais eufóricos, outros menos, quando de repente começa a intro The GodThe BadThe Ugly e a banda entra no palco, tocando Durango 95 e Teenage Lobotomy, tudo isso em pouco mais de 3 minutos e tudo exatamente igual ao Loco Live! Realmente impressionante, o público estava insano, a energia era contagiante, os Ramones estavam no palco! Pshyco Therapy veio em seguida para agitar mais ainda os ânimos, e Joey dá o “boa noite” da banda para a galera, com Blitzkrieg Bop depois do famoso Onetwothreefour!”, arrancando em uníssono o tão esperadoHey HoLet’s Go!”. Um massacre, no bom sentido. Todos completamente conquistados, todos só aguardando o próximo Onetwothreefour!”.
Do You Remember Rock N’ Roll Radio, diz Joey Ramone ao microfone, e a canção começa, obviamente mais pesada e mais rápida que a versão original, como já era de se esperar, especialmente para os milhares ali que tinham o Loco Live. Em seguida, I Believe in Miracles, que colocou o lugar abaixo, com todos cantando bem alto o refrão, e a rápida Gimme Gimme Shock Treatment, mais rápida ainda! Desta vez não teve o famoso “Onetwothreefour!”,no fim da música a bateria continuou sozinha, daí eu pensei “será que é ela”, e era ela sim, Rock N’ Roll High Scholl, uma das minhas preferidas. Nada podia atrapalhar, o momento era sublime, mas eis que no meio da música um estrondo acontece e abre-se um clarão na frente do palco (uns pulavam felizes no meio da fumaça, por finalmente terem conseguido se aproximar do palco), e imediatamente os olhos começam a arder. A banda ainda tocou a canção até o fim e tentou emendar com a próxima (I Wanna be Sedated), mas não havia condições, o local estava tomado por aquela fumaça que ardia e arrancava lágrimas de todos. Só depois que eu, e provavelmente a maioria dos que estavam ali, me dei conta que tinham jogado uma bomba de gás lacrimogêneo no meio da plateia. Lembro que eu olhava para o Cláudio e ria da cara dele e ele fazia o mesmo, por simplesmente não saber o que estava acontecendo. O evento ficou parado uns bons minutos, todos iam ao banheiro para lavar o rosto, muitos haviam tirado a camisa e a esfregavam incessantemente nos olhos, uma situação inexplicável. Não tinha nem 20 minutos de espetáculo ainda, apenas 8 músicas tocadas, e o show tinha parado. E o pior, não sabíamos se continuaria ou não…
Enfim, os Ramones voltam ao palco depois de imensuráveis minutos de ansiedade, para alívio de todos. A banda voltou com I Wanna Live, as pessoas ainda se recuperavam do susto, mas aos poucos todos entraram no clima de novo. Daí pra frente foram mais 40 minutos mágicos que um triste ato imbecil não conseguiu estragar, com destaque para clássicos como Shenna is a Punk RockerRockaway BeachPet CemetarySomebody Put Something in my DrinkAnimal BoyWart HogBeat on the Brat e Pinheadcom o também aguardado “Gabba Gabba Hey” no fim da músicacantado por todos como se fosse um gol em uma partida de futebolE a cada parada sem o One, two, three, four! emendando uma música na outra (pouquíssimas, diga-se de passagem), o público gritava bem alto o grito de guerra da banda, Hey HoLet’s Go!”. As músicas novas também foram muito bem recebidas pela galera, assim como C.J. Ramone, que havia entrado para a banda há pouco tempo, mas que parecia já um Ramone veterano no palco, de uma energia incrível!
A primeira vez dos Ramones no Rio de Janeiro foi assim, um tanto conturbada, mas com a vitória do bom e velho rock and roll sobre as adversidades, uma noite com a vitória de um sentimento verdadeiro e incondicional diante da estupidez humana. O público saiu de alma lavada, um capítulo importante na história pessoal de todos os presentes ali tinha acontecido, os Ramones haviam passado por suas vidas – quem não era tão fã assim, certamente ficou, e quem já era, ficou mais ainda. A esperança que a década de 90 seria um tempo para se viver e conferir shows internacionais de grande porte vinha se confirmando, e nada como viver e ver ao vivo!

Postar um comentário

0 Comentários