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O show mais esperado do início de uma década

O ano era 1993, um ano de ouro para os shows no Brasil, o ano em que o país se firmou como rota internacional dos grandes nomes do rock. A banda, a mais esperada desde o lançamento do Black Album, em 1991. Foram dois anos aguardando esse show, dois anos torcendo para que aquele momento chegasse, dois anos esperando para ver o Metallica ao vivo, não importava onde fosse ou quanto fosse. Os fãs estavam sedentos para ver aquela banda que até então só tinha vindo uma vez no país, e antes do Black Album. O pessoal queria ver o Black Album, os fãs queriam Enter Sandman, queriam Sad But True, queriam The Unforgiven ao vivo. E o grande dia foi em 1º de Maio de 1993 no Palestra Itália (também conhecido como Parque Antárctica), o estádio do Palmeiras, em São Paulo.

Eu, então com 17 anos, faria a minha primeira viagem para conferir uma banda ao vivo, a primeira de tantas. Nunca tinha ido a São Paulo, apesar de relativamente perto do Rio de Janeiro, não me interessava por aquela cidade, que era maior ainda do que a minha e que aparentemente não tinha nenhum atrativo para um carioca adolescente. Mas, enfim, havia um grande motivo para conhecer a Terra da garoa”, e assim eu e meu companheiro de shows, o Cláudio Prometeu, partimos em uma excursão da recém-inaugurada loja de CDs e afins especializados em rock, a Headbanger. O ponto de encontro era perto da loja, que ficava na esquina da Av. Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Xavier da Silveira, e o ônibus lotado de roqueiros saiu do Rio de Janeiro rumo a São Paulo naquela mesma manhã do dia em que aconteceria o show mais esperado dos últimos anos.
A viagem foi em total clima de festa, todos estavam eufóricos, muitos ali também faziam a sua primeira viagem para ver um show. Depois de aproximadamente 6 horas de estrada, chegávamos ao tão esperado Parque Antárctica, apesar de na época eu ser um grande fã de futebol, nunca tinha entrado num estádio de um time paulista. Lembro que ficamos um pouco apreensivos, pois a torcida do Palmeiras era um tanto violenta, mas relaxamos depois; afinal, era um show de rock, e não uma partida de futebol entre cariocas e paulistas. Já era noite quando conseguimos adentrar o local, que estava completamente lotado, nunca tinha enfrentado uma multidão daquelas. Eu e Cláudio fomos de pista, pisávamos no campo do Palmeiras, que estava coberto com alguns tapumes, para não danificar o gramado. De cara, ficamos encantados com o palco, que tinha uma extensão para frente e para os lados (tão comum hoje em dia, mas não no início dos anos 90), e estas formavam um ou dois vãos onde alguns fãs tinham a sorte de ver os caras praticamente dentro do palco, algo inovador naqueles dias. Os telões eram bem grandes, os maiores que eu já tinha visto até então. Parece que tudo estava preparado para ser uma noite inesquecível.
Enquanto aguardávamos o início do show, nos deliciávamos com ótimos sons que estavam preparando o espírito da galera, muito AC/DCBlack SabbathIron Maiden e afins rolavam nas grandes caixas de som do palco. De repente, parou a música, as luzes se apagaram e a gritaria foi geral, e a famosa intro The Ecstasy of Gold entra em cena. As luzes acendem na bateria e lá surge o Lars, para delírio dos fãs já enlouquecidos, e a banda inteira entra e começa a tocar Enter Sandman! Inacreditável, os caras começavam o show já com esta, e a resposta foi imediata: o público cantou alto a música inteira, da primeira à última palavra da letra. Nunca tinha visto nada parecido. Em seguida, Creeping Death, com James Hetfield incitando a galera a cantar o famoso “Die, Die, Die…” no meio da música. Incrível! Inacreditável, realmente era o Metallica ali a poucos metros de nós! Se o show acabasse ali depois daquelas duas músicas, depois daqueles 15 minutos surreais, eu já ia pra casa satisfeito, com um sorriso de orelha a orelha…
Black Album estava em alta, era O disco de heavy metal do início da década, mas eu confesso que ele não “enchia muito os meus olhos” na época. Eu estava ali para conferir os clássicos dos anos 80, para curtir justamente a fase pré-Black Album (apesar de amar Sad But True e The Unforgiven), e eu gostava especialmente do disco antecessor, o And Justice for AllPor isso, quando começou Haverster of Sorrow, logo depois do BOA NOITE de James, eu disse pra mim mesmo “agora é a sua vez de pirar!” Que música! Eu gostava muito dos sons mais cadenciados do Metallica, e esta com certeza era uma ótima representante deste estilo mais pesado e menos veloz da banda. Na sequência, os caras pegaram pesado: Welcome Home (Sanitarium), clássico do clássico disco Master of Puppets, uma canção daquelas, um casamento perfeito entre peso e melodia onde se podia admirar toda a maestria de Mr. Kirk Hammett, que deu um pouquinho de guitarra solo antes de começar a música. Em falar nisso, eu era muito guitar man na época, o que mais me interessava eram as guitarras, e Kirk Hammett era quase um deus com seus solos incríveis e com lindas melodias em meio a todo peso da banda. E o cara estava endiabrado, estava tocando muito, e eu escutava exatamente isto a cada solo, pessoas ao meu lado gritando “o cara toca muito!”. A “casa caiu” quando entramos naquela parte mais rápida da música, daí até o fim foi uma loucura só! Digo “entramos” porque não dava mais para separar a banda do público, era tudo uma coisa só, um momento energético único.
Eu disse que a casa havia caído, mas agora era a vez dela “desmoronar” de vez, Sad But True vinha parece aquecer mais ainda a galera. Foi um ponto alto do show, outra música que o povo cantou junto. Pra mim, era a oportunidade de conferir ao vivo uma das melhores músicas da banda, desde que a escutei pela primeira vez, não tinha dúvidas disso. Que momento. Em seguida, mais uma do Black AlbumOf Wolf and Man, música bacana, mas não chegava perto de nenhuma das antecessoras de um show que era matador até aquele instante. Mas foi bom, foi hora de descansar um pouquinho (como se isso fosse possível naquela noite), hora de pelo menos parar de pular alguns minutos. As cinco primeiras realmente tinham sido avassaladoras (Só cinco? Pareceram uma linda e gostosa eternidade), mas felizmente não deu tanto tempo de descansar assim, logo ao fim de Of Wolf and Man, eis que Kirk Hammet começa o seu momento solo. Olhos e ouvidos atentos, ninguém pulava, todos estavam hipnotizados, tipo o momento que precede a explosão, o momento da água que recua para formar a tsunamiKirk sai de cena e entra o James dedilhando o violão, e a tsunami chegou e inundou todo o público, uma tsunami chamada The Unforgiven! Foi realmente mágico, a música é linda, e conferir ao vivo aquele solo de guitarra que o próprio Kirk Hammet considera como uma das melhores coisas que ele já fez na guitarra, foi surreal.
Estávamos chegando na metade do show, e antes de começar a próxima música, James Hetfield pergunta quem ali tinha o disco And Justice for All. Eu fiquei surpreso com tanta gente ter gritado em resposta, assim como ele, que soltou um “a lot of people man”. Em seguida ele falou algo que eu não entendi direito, e eles começam a intro maravilhosa de Eye of the Beholder, um dos instrumentais que eu mais gosto da banda; mas para minha surpresa, só mesmo esta intro foi tocada, James puxou um “Hey, Hey, Hey” e na sequência veio outro instrumentalfantástico dos caras, a melhor parte de Blackened, na minha opinião, que foi emendada com o início de TheShortest Straw, que antecipou o grand finale do genial medley, onde eles tocaram …And Justice for All quase toda (com direito ao solo de guitarra inteiro) e terminaram tocando novamente a Blackeneddesta vez desde o início até o refrãoUfa, fiquei sem fôlego só em descrever issonão tenho palavras para dizer o que senti naquele instante. Through the Never, outro bom momento para tentar repor as energias. E foi altamente necessário, pois o que viria em frente era para deixar os fãs completamente rendidos.
Mais um “Hey, Hey, Hey”, desta vez acompanhado com o bumbo de Lars, depois o baixo distorcido de um Jason Newsted de cabeça raspada e cara de mau, e James anuncia o clássico For Whom the Bell Tolls, do disco Ride the Lightning, o segundo dos caras e um dos preferidos de tanta gente, inclusive deste que vos escreve. Eu adorava tocar esta música no estúdio, assim como o Cláudio, então acho que dá pra imaginar o quanto pulamos nessa. O tempo parecia ter parado, era a catarse. Mais um momento solo de Kirk Hammet e em seguida a cereja do bolo, o momento que certamente a maioria ali esperava, ainda mais se fossem músicos, como nós. Fade to Black, uma das melhores músicas da história do heavy metal, uma canção que dispensa apresentações. Foi daqueles momentos de ficar hipnotizado, de cantar se desse, porque era algo surreal demais aquela música diante dos olhos, dos ouvidos e de todo o resto, era o momento de sentir. Pra mim, foi a apoteose do show, o apocalipse, uma música que não precisava ter terminado… “You like that song, don’t you?”, dizia James no final da música, aproveitando também para brincar com a galera, dizendo que o público estava cansado e simulando uma despedida. O que mais faltava?Ah sim, faltava, mas era pedir demais que viesse logo em seguida. Mas veio.
James dizia “Oh Yeah”, e os fãs respondiam “Oh Yeah”, e assim foi até o “Oh Yeah” se transformar em “Masterof… Puppets”. Tan, tan tan tan, e depois disso foi uma loucura, mal se via o palco, somente as cabeças e braços no ar. Era A música, O clássico, A redenção totalJames nem precisava cantar o refrão, era estritamente desnecessário.  No decorrer da música, ele começou a revezar os vocais com o público, era tudo um só novamente, uma banda formada por milhares de pessoas ensandecidas. Foi tudo caótico até chegar ao famoso “Master, máster, máster…”, que antecede o meio da música, daquela melodia linda que precede o crescente e o retorno para o fim da canção, mas esta parte não veio, eles emendaram com Seek & Destroy. A emenda até que ficou legal, mas bem que poderia ser em outra parte de qualquer outra música, mas não ali. Fiquei um pouco frustrado (não só eu, como pude perceber ao redor), mas logo estava ali cantando e pulando novamente, afinal de contas, era Seek &Destroy! O Metallica estendeu bastante a música, foi aquele momento de “dar e receber” do show, com a galera participando no meio da execução do som, quando ficou só baixo e batera e o James largou a guitarra e foi só com o microfone incitar a galera para que cantassem junto o refrão. Lembra aquele pessoal vip alojado praticamente no meio do palco? James Hetfield inclusive deu o microfone para alguns sortudos que estavam ali para cantarem o refrão. Daí pra frente eu destaco Wherever I May Roam e One, outra que era muito aguardada e uma de minhas preferidas. One foi apoteótica, desde aquela intro formada por sons de tiro e helicópteros até o seu finalaniquilador. Animal! O show podia ter terminado ali, já estava mais que ótimo pra mim! Eles ainda tocaram um cover do Queen no final, Stone Cold Crazy.
Após o fim de um show memorável, ainda deu tempo de provar o famoso cachorro quente paulista com purê de batata, antes de voltar para o ônibus da excursão. Estava tudo lindo, nós ríamos à toa de qualquer coisa, inclusive quase não achamos o ônibus (não havia celulares naquele tempo), quase não voltamos para casa. Estávamos meio desnorteados, meio perdidos… afinal de contas, o Metallica havia passado por nossas vidas como um trem desgovernado. Para nossa imensa alegria!

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