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Uma noite de Heavy Metal na quadra da escola de samba

Rio de Janeiro, terça-feira, 14 de abril de 1992, certamente um dia para se gravar nos anais da história de shows internacionais realizados no Brasil. Você pode ter estranhado o título, talvez achado que é alguma brincadeira ou pegadinha, mas foi exatamente isto que aconteceu: uma noite onde o heavy metal invadiu a quadra de samba da Estácio de Sá, na zona central da Cidade Maravilhosa. Inusitado. Impensável. Avassalador!

Ainda na fila, dava para sentir a incredulidade dos funcionários da escola de samba que trabalharam naquela fatídica noite, provavelmente deveriam estar pensando “Meu Deus, o que estou fazendo aqui!”. Era um contraste hilário, os seguranças de camisas floridas olhando meio assustados para os metaleiros (o termo headbanger ainda estava nascendo, para a maioria das pessoas ainda se usava o metaleiro para distinguir aquele grupo que escutava um som mais pesado), que vinham com suas camisas pretas de bandas, geralmente com desenhos nada amigáveis de caveiras e sangue, e suas pulseiras e acessórios de metal. E lá estava eu, igualmente incrédulo por estar prestes a entrar em uma quadra de escola de samba pela primeira vez, justamente para ver um show de metal.
thrash metal estava em seu auge na época, bandas pioneiras como MetallicaMegadethAnthrax e Slayer tinham lançado ótimos discos no início da década de 90, assim como o recém-chegado Pantera, que vinha com força total no cenário. O Kreator ainda colhia os louros da excelente dobradinha dos álbuns Extreme Agression (1989) e Coma of Souls (1990), e sem dúvidas estava no auge da carreira – percebendo isso, o grupo Garage não mediu esforços para produzir o maior show internacional da história do importante clube, que ficava na Praça da Bandeira, ao lado da lendária Vila Mimosa. Ainda não aconteciam shows no Garage até o momento, o primeiro foi em setembro daquele mesmo ano, mas o local era conhecido por passar vídeos de rock (especialmente de heavy metal) e já contava com um público fiel, e assim o idealizador Fábio Costa viu uma grande oportunidade de expandir o nome da casa trazendo os alemães do Kreator para o Rio de Janeiro. Por questões de espaço, o show não pôde ser realizado no próprio Garage, e daí surgiu a inusitada parceria com a Escola de Samba Estácio de Sá.
Enfim havia chegado a minha hora de entrar na quadra e de cara me deparei com uma cena bizarra: a quadra era enorme, mas haviam montado um palco quadrado, bem pequeno, no meio do local. O palco realmente poderia ser pelo menos um pouco maior, a cena de fato era engraçada. O público já estava devidamente aquecido, os shows de abertura de Dorsal Atlântica e Korzus já tinham “valido o ingresso”, como ouvi muita gente dizer; infelizmente não conferi estas apresentações, por razões que confesso não me lembrar. A ansiedade era grande, afinal de contas era o primeiro show de heavy metal que eu assistiria em minha vida, e tudo bem de pertinho. As luzes finalmente se apagaram e a empolgação tomou conta de todos. A banda subiu ao palco ao som da música de introdução e minutos depois a avalanche sonora começou.
Aos primeiros riffs de Terrorzone, do Coma of Souls, a histeria foi geral. Essa era uma das minhas preferidas, uma música muito bem trabalhada que une perfeitamente peso e melodia, eles tinham começado com o pé direito. Eu tinha os LPs de Endless Pain, primeiro disco dos caras, e os já comentados Extreme Agression e Coma of Souls, por isso não reconheci a rápida Toxic Trace, do Terrible Certainty, terceiro trabalho do grupo. O Kreator também era classificado como Speed Metal, e Toxic Trace representava bem o estilo. Depois veio uma dobradinha do Extreme Agression, que fez a casa ir abaixo, Betrayer e Some Pain Will Last. O show pegava fogo, mas o público estranhamente estava quieto, pois a qualquer tentativa de “dança”, os “floridos” seguranças corriam em direção às pessoas e “delicadamente” acabavam com a diversão; pensavam que eram brigas, obviamente não estavam familiarizados com o modo como os amantes de música pesada costumam se comportar em um show.
A apresentação continuou com mais uma ótima música do Coma of Souls, a Agents of Brutality, que tem o famoso “riff abelha” que praticamente marca a transição do estilo Speed Metal da banda para um thrash metal mais trabalhado. Esta canção ficou muito boa ao vivo, deu uma cadenciada no show (como se isso fosse realmente possível em se tratando de Kreator), e na sequência veio Riot of Violence, do Pleasure to Kill, e People of the Lie, do Coma of Souls, mantendo a apresentação no momento “bater cabeça” da noite. People of the Lie era o grande hit de Coma of Souls, a música que tinha um clipe na MTV Brasil e tocava direto no programa Fúria Metal, foi um momento alto da apresentação, daquelas de ficar com a nuca doendo, if you know what I mean.
Já tinha decorrido a metade do show, estavam todos extasiados, mas a intenção do Kreator não era acalmar os ânimos, muito pelo contrário! E assim vieram Endless PainPleasure to Kill Terrible Certainty, faixas-título dos três primeiros discos da banda, uma sequência de “levantar defunto”. Estava tudo pronto para a apoteose da noite, e ela veio com mais duas faixas-título, Extreme Agression e Coma of Souls, para delírio generalizado de todos os ali presentes. Depois dos últimos acordes desta sequência avassaladora, eu tinha certeza que esta era uma noite que entraria para a história… e pela cara das pessoas ligadas à Estácio de Sá, eu também tinha certeza absoluta que seria a primeira e única vez que uma banda de heavy metal tocaria na quadra de uma escola de samba.
O show podia ter terminado com Coma of Souls, todos iriam felizes para casa, mas ainda havia espaço para mais uma sequência matadora; e quando eu digo matadora, não estou exagerando. Ripping Corpse abriu o grand finale, uma porrada na orelha do segundo disco, que eu até então não conhecia, mas que me impressionou bastante; pra terminar, Flag of Hate e Tormentor, dobradinha clássica do primeiro disco que o Kreator usa até hoje para se despedir de seu público. Ao acender das luzes, era fácil perceber um misto de satisfação interior e dever cumprido, tanto por parte dos fãs quanto dos funcionários da Estácio de Sá. No que diz respeito a mim, a resposta fica ainda mais fácil: foi uma primeira vez inesquecível, que mudaria para sempre a minha vida, uma primeira vez que me tornou viciado em apresentações ao vivo de bandas e artistas de heavy metal!

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