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O coadjuvante que roubou a cena

O ano era 1991; o evento, o mais esperado do ano. Enfim a segunda edição do tão aclamado Rock In Rio estava acontecendo, seis anos depois de sua estreia no mundo dos grandes festivais. Já estávamos no 3º dia do evento, dia 20 de janeiro, e até então eu tinha ido a todos os dias, isto na flor dos meus 15 anos, ou melhor, a um dia de completar esta idade. Infelizmente o dia 21 foi o único intervalo no festival que rolou de 16 a 27 de janeiro. Sendo assim, a véspera virou a data oficial do meu aniversário naquele ano, e não poderia haver dia melhor, pois era chegada a hora da primeira apresentação do Guns N´ Roses. A banda do momento, o principal headliner do festival.

Rock In Rio 2 foi um festival praticamente todo delineado pela MTV, que havia acabado de chegar em terras brasileiras. A MTV Brasil completava 3 meses de existência justamente naquele 20 de janeiro de 1991, e até então comandava o cenário musical no país, mais do que qualquer rádio, pois através dela podíamos conhecer não só as músicas, mas também a “cara” dos artistas e bandas, o jeito que eles se vestiam, como falavam, como cantavam etc. Foi realmente um marco na história da juventude de uma época. Os anos 90 acabavam de nascer, e traziam consigo uma verdadeira revolução musical a nível mundial. E o Guns N’ Roses era realmente A banda, o grupo que tinha um excelente guitarrista e músicas que resgatavam um rock com guitarras mais pesadas e boas baladas, além de arrancar suspiros das garotas com seu carismático vocalista. Quem em sã consciência perderia o show do Guns?
Mas eis que surge a grande surpresa da noite e do festival, logo após o excelente show do Titãs, que tinha sido um dos melhores shows do Rock In Rio 2 até o momento, um show que levantou a galera, que lavou a alma dos fãs do rock brazuca com clássicos atrás de clássicos – uma ótima preparação para o que vinha a seguir. E o Faith No More veio com força total! Todos conheciam a banda, devido aos clipes de Epic e Falling to Pieces, que frequentemente estavam no Top 10 da MTV Brasil, mas poucos conheciam a potência deles ao vivo. Eu tinha o The Real Thing em LP, um disco impressionante, um dos meus preferidos até hoje, mas de forma alguma podia esperar o que me aguardava naquela próxima hora no, até então, maior estádio do mundo.
Eles abriram com From Out of Nowhere, a primeira do disco, mostrando já toda a energia e loucura que seria aquele show épico! As batidas de cabeça do vocal Mike Patton eram impressionantes, parecia que a cabeça dele ia voar a qualquer hora; outra coisa incrível desde o início era o batera, que praticamente ficava de pé a cada porrada no bumbo. Em seguida, o FNM tocou We Care a Lot, do disco anterior (que contava com outro vocalista), não tão conhecida assim do público. Mas a performance da banda, e especialmente de Mr. Patton, conquistaram de vez as120 mil pessoas ali presentes; nesta música, Mike Patton deu a sua primeira deitada no palco, a primeira de tantas…
Em seguida, uma dobradinha totalmente inusitada: a bonita e suave Sweet Dreams (You Can’t Resist), com destaque para o teclado, e a pesadíssima Surprise! You’re Dead!, o primeiro grande momento do show. Era impossível não bater cabeça nesta música! Até então, nenhum clássico, mas todos completamente extasiados, talvez por isso muitos devam ter confundido o início de Underwater Love com a Epic, fazendo surgir um uníssono como se fosse um gol no estádio. Mas ainda não era o momento, foi na trave! No entanto, o primeiro gol viria logo a seguir.
Falling to Pieces veio na sequência, a música que estava em alta, o clipe que não parava de passar na MTV Brasil, o hit do Faith No More no exato momento do festival. A multidão estava entregue, todos cantando o refrão, perfeito para o instante seguinte, pra mim o ápice da apresentação. Em The Real Thing, faixa título do disco que colocou a banda no estrelato, o FNM mostrou realmente a que veio: sacudir o cenário rock mundial e especialmente o Rock In Rio 2. E o público vibrou, sentiu a catarse. Em seguida, veio The Crab Song, do disco Introduce Yourself, também desconhecida da maioria, mas que também agitou bastante.
Estava mais que na hora, e assim veio Epic, realmente um momento mais do que épico! Foi aquele momento em que as pessoas veem mais mãos e braços do que o próprio palco, até pra mim, que sou bem alto. Mas deu pra ver MR. Patton se enrolando no fio do microfone e caindo deitado no palco em seguida, bem no momento do pianinho, no fim da música, que certamente fez muitos se lembrarem daquele peixinho se debatendo no final do clipe de Epic. Todo mundo satisfeito, podia acabar o show ali. O que mais faltava? Mas ainda tinha espaço para a cereja do bolo, o bônus de ouro
Poucas músicas são tão boas ao vivo quanto War Pigs, e Mike Patton e Cia acertaram em cheio ao inclui-la no setlist. O público ainda estava meio entorpecido pelo efeito bombástico da canção anterior, a qualidade do som também não ajudava muito às vezes, a maravilhosa intro do clássico do Black Sabbath rolava e as pessoas se perguntavam se era aquilo mesmo ou se era alguma alucinação musical, mas quando Mr. Patton cantou a primeira estrofe, veio a apoteose! E assim foi até o fim. O sucesso foi tanto que a banda teve que voltar para um bis improvisado, tocando Easy, dos Commodores, que seria lançada em Angel Dust, o disco posterior do Faith No More.
A noite ainda seguiria bem com o ótimo e também surpreendente show de Billy Idol e a estreia do Guns N’ Roses em território nacional, fazendo um show que eu classificaria de “quase lá” ou “quase quente” (morno?). A noite já tinha o seu show campeão, o jogo já estava ganho, talvez por isso as apresentações seguintes pareciam somente “cumprir tabela”, especialmente o tão esperado show do Guns. O Faith No More realmente roubou a cena naquele dia 20 de janeiro de 1991, e não é à toa que o show em questão é considerado um dos melhores de todos os tempos do festival. Para mim, foi o presente de aniversário perfeito, e desta forma não fiquei tão triste de não ter uma data do Rock In Rio 2 no dia em que completava 15 anos. O festival realmente precisava de um descanso.

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